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Nada de nave alienígena: cometa interestelar 3I/ATLAS desperta e revela ‘sopa orgânica’ após passar pelo Sol

O corpo celeste interestelar 3I/ATLAS esteve no centro dos debates astronômicos ao longo dos últimos oito meses. Sendo apenas o terceiro objeto de fora do nosso Sistema Solar já identificado pela ciência — seguindo os rastros do 1I/‘Oumuamua em 2017 e do 2I/Borisov em 2019 —, sua rara presença inevitavelmente abriu espaço para especulações ousadas. Contudo, dados recentes de diferentes observatórios formam um consenso claro. A rocha não é uma sonda alienígena e, após passar perto do Sol, mostrou ser um cometa em plena efervescência química.

O fim da hipótese artificial

A ideia de que o 3I/ATLAS pudesse carregar algum tipo de tecnologia extraterrestre foi levada a sério o suficiente para mobilizar o projeto Breakthrough Listen. Os pesquisadores direcionaram o Telescópio Green Bank, uma imensa antena de rádio de 100 metros de diâmetro, para rastrear possíveis tecnossinaturas. Eles caçavam sinais de rádio de banda estreita, o tipo de transmissão que exige pouca energia e viaja com facilidade pelas imensidões do cosmos.

Como o equipamento opera em uma zona protegida contra interferências, ele tem sensibilidade para captar emissores de meros 0,1 watt de potência. Celulares comuns no nosso dia a dia emitem cerca de 1 watt. Mesmo com essa capacidade absurda de detecção, os radiotelescópios encontraram um silêncio absoluto. Até surgiram nove registros iniciais nos detectores da equipe, mas todos passaram por filtros mais rigorosos e acabaram identificados como interferência de origem terrestre. Benjamin Jacobson-Bell, líder da pesquisa pela Universidade da Califórnia em Berkeley, conversou com o Space.com e foi direto ao ponto. Ele explicou que o fracasso na busca por sinais já era o cenário mais provável, pois o comportamento do objeto apontava para a natureza de um cometa comum.

O despertar após a aproximação solar

A confirmação definitiva sobre o comportamento natural do 3I/ATLAS veio com observações espaciais mais apuradas. Um artigo recém-disponibilizado na plataforma arXiv, assinado por Carey Lisse, da Universidade Johns Hopkins, e seus colaboradores, narra a drástica transformação do cometa nos últimos meses. Eles usaram o observatório SPHEREx da NASA, lançado em março do ano passado com o objetivo de mapear o céu em infravermelho próximo e rastrear alvos dinâmicos.

Quando o telescópio espionou o visitante pela primeira vez, em agosto, o cenário era bastante monótono. O cometa não demonstrava quase nenhuma atividade e não havia sinais de água. Segundo os autores do estudo, isso ocorreu porque a rocha viajou bilhões de anos pelo espaço interestelar sofrendo o bombardeio ininterrupto de raios cósmicos. Essa radiação prolongada formou uma espécie de casca endurecida ao redor do núcleo, aprisionando os compostos voláteis em seu interior.

A situação mudou de figura assim que o 3I/ATLAS mergulhou atrás do Sol. A onda colossal de energia térmica da nossa estrela trincou a blindagem cósmica da rocha. Ao ressurgir no campo de visão dos astrônomos no mês de dezembro, o cometa havia acordado de seu longo sono profundo.

Jatos de água e sopa orgânica

O rompimento da crosta externa fez os números do SPHEREx saltarem. A produção de água do cometa chegou a 40 vezes o volume detectado nas observações de agosto. A liberação de dióxido de carbono teve um pico ainda mais agressivo, alcançando 80 vezes a marca original. Os cientistas também notaram que a proporção de monóxido para dióxido de carbono ficou em 2,5, um índice bastante familiar para quem estuda os cometas dominados por monóxido de carbono que habitam o nosso próprio quintal planetário.

A assinatura química, no entanto, foi além da água e das combinações de carbono e oxigênio. Os dados revelaram uma farta sopa de moléculas orgânicas sendo ejetadas para o vácuo. Embora os espectrógrafos do observatório tenham dificuldade de separar compostos específicos nessa mistura, a emissão provavelmente carrega metano, etano, metanol e formaldeído. Para fechar as descobertas, as novas leituras apontaram uma linha espectral cravada em 0,925 micrômetros, um detalhe completamente ausente no meio do ano anterior. Era a prova final de que o visitante congelado agora está expelindo gás cianeto.